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A obra de Lucílio de Albuquerque.
Textos e Imagens, digitalizados dos originais de seu acervo.

 

Galeria

 

 

Além da documentação textual, sobremaneira relacionada às atividades desenvolvidas por sua esposa, Georgina, em torno do Museu Lucílio de Albuquerque, a Coleção Particular Lucílio de Albuquerque guarda desenhos e esboços realizados pelo eminente pintor. Trata-se do exercício plástico contido nos estudos que antecedem a obra de arte – materialização no papel do desejo de criação do artista.

 

Na primeira fase da carreira de Lucílio de Albuquerque, a figura preocupou-o de forma dominante. Era a época da Escola Nacional de Belas Artes. Tal cuidado acompanhou-o até os primeiros tempos em Paris, na Académie [Academia] Julian. Lucílio, porém, não se limitava ao modelo propriamente dito, conferindo-lhe o significado de uma representação possível de uma ideia – forma de pensar muito cara ao Simbolismo. Por muitos anos, harmonizou-se com este pendor, derivado do Idealismo, que se propunha a substituir a antiga alegoria, levando o espectador a ter a sua sensibilidade e sua emoção despertadas por uma ideia.

Ressaltemos que o Simbolismo foi um movimento artístico e literário que surgiu na França na década 1880, constituindo uma reação contra o materialismo e a mecanização da civilização industrial. Esta corrente rejeitava simultaneamente o Realismo, o Romantismo e o Impressionismo, acreditando que a arte deveria exprimir ideias a partir de uma concepção simbolista das formas e da cor. Os pintores simbolistas apresentavam especial preferência por temáticas místicas ligadas à religião, a lendas profanas, à morte ou ao pecado, impregnadas de forte teor moralizante, para as quais a técnica do fresco se adequava perfeitamente. Enquanto movimento artístico, o Simbolismo não apresentou uma uniformidade estilística, resultando mais de uma atitude espiritual que de um programa estético rígido.

Deste modo, pode-se afirmar que Lucílio de Albuquerque estava plenamente antenado com as tendências artísticas de sua época, ambientando-se profundamente a partir de sua viagem ao exterior nos primeiros anos de carreira. Assim, procurava reproduzir em seus quadros um estado de alma, impressionando sobretudo com as ideias. Mesmo mais tarde, diria: “Pinto com o mesmo entusiasmo a marinha e a paisagem. Todavia, confesso que fico mais satisfeito toda vez que realizo um quadro de ideias, que faça pensar”. E desta maneira emergiu “Paraíso restituído”, “Despertar de Ícaro”, “Mãe Preta” e “Primeiros frutos”.

Quanto à sua técnica, já como aluno, manifestava um ótimo desenho e uma paleta de cores quentes, como a dos flamengos. Sua fatura já era marcadamente larga e pastosa, no dizer de sua mulher, a também pintora Georgina, com a qual entrelaçou sempre sua carreira.

Em Paris, destacou-se esta mesma qualidade, obtendo notas favoráveis da crítica quando expunha no Salon des Artistes Français [Salão dos Artistas Franceses]. Neste momento, já havia começado a assimilar toques do Impressionismo, buscando luminosidade em suas composições, fossem elas místicas ou sobre grandes personagens ou acontecimentos históricos.

Seguiu-se a fase dos retratos, já inaugurada com “A la campagne” [“No campo”] e “Rapariga do Minho”, ao ar livre. Retratou, com esta disposição, autoridades e políticos. Mas é com “Retrato de Georgina” que alcançou grande consagração no Salão de Belas Artes de 1920 – a Medalha de Honra. Percebia-se ainda a dedicação com a construção formal e clássica, a contrastar com a delicadeza do colorido. Sua evolução estilística partia da forma para chegar aos efeitos cromáticos e de luminosidade, tornando-se paulatinamente mais clara e alegre, à medida que amadurecia.

A pintura ao ar livre, muito provavelmente influenciada por Georgina, grande cultora do gênero, começava a conquistá-lo. Apesar de ter passado ainda pela fase das grandes composições históricas – gênero que nunca abandonou de todo –, na maturidade, empolgou-o finalmente a paisagem, na qual sua técnica adquiriu pujança, renovou-se e arejou seus processos, dominando-o. Neste sentido, as belas enseadas de Niterói pareciam tê-lo seduzido, já que, de 1918 em diante, temos suas primeiras paisagens nesta região.

A tendência evolucionista ajudava-o a cultivar o espírito de renovação artística. É desta feita que se expressou numa entrevista em 1927, dizendo em relação à arte: “Precisamos fazer tudo. Criar, improvisar, porque nada do que está feito é nosso”.

Sua ida à Bahia em 1924 se mostrou de importância decisiva para esta transformação. A partir daí, passou a utilizar a espátula, em detrimento ao pincel. Além disso, a reformulação passou por uma aproximação maior da realidade. Roberto Pontual, crítico de arte da segunda metade do século XX, define a mudança ocorrida neste momento: “Sua pincelada se solta, passando a forma a ser obtida pelas massas que se completam ou se opõem”. Ronald de Carvalho, poeta modernista contemporâneo de Lucílio, explica o que se processou: “Aos arremessos da pintura épica, preferiu as seduções do lirismo tradicional da alma brasileira”. É nesta época que Lucílio pintou paisagens de Porto Alegre (1929 e 1930), São Paulo (1931, 1935 e 1936) e cidades históricas de Minas Gerais (1932 e 1934), sem contar as do Rio de Janeiro, que fazia em todos os períodos, nos intervalos de suas inúmeras viagens. Deste modo, Lucílio revigorou o tema da paisagem, não só no prestígio da luz, mas também nos planos solidamente estabelecidos da composição e nas linhas limitando seguramente massas e volumes.

Os aspectos urbanos constituíram igualmente gênero de seu gosto e talento, como os casarios e as ruas tortuosas marcadas de luz e sombra. Seus flamboyants consistiram em uma marca registrada, que executava com maestria.

Nas palavras de Quirino Campofiorito, seu contemporâneo:

“Lucílio de Albuquerque passou pelos gêneros pictóricos com igual desenvoltura. Não conheceu empecilhos em qualquer gênero de pintura. Na composição histórica e de gênero, no nu, no retrato, na paisagem como na marinha, foi Lucílio mestre indiscutível. Na pintura nacional, raríssimos nomes deixaram uma bagagem tão completa.”

Contudo, “em toda a sua obra não se deixa de sentir uma unidade profunda”, como observou Celso Kelly quando de sua retrospectiva um ano após sua morte no Museu Nacional de Belas Artes. Sua evolução foi constante, sempre fiel à sua vocação. Os seus dotes de desenhista seguro conferiam firmeza aos contornos de seus quadros, por luminosos que os apresentasse. Habilidoso colorista de raros recursos, reunia todos esses elementos: luz, desenho, cor, sua rica sensibilidade e sua cultura geral – lançando-os em suas diversas obras.

Na cátedra de Desenho Figurado da Escola Nacional de Belas Artes, realizou modificação completa do sistema adotado, substituindo o conceito de linha pelo de interpretação da forma e, por conseguinte, reivindicando revolucionariamente modelos válidos para esta matéria.

Enfim, pode-se considerar que sua obra, aliando aspectos da linguagem impressionista com os ensinamentos acadêmicos, consegue estabelecer o testemunho da fase de transição entre o academicismo clássico e o impressionismo.

Referências:

Albuquerque, Lucílio de (1877 - 1939). Enciclopédia Itaú Cultural Artes Visuais. São Paulo, atualizado em 05 set. 2011. Disponível em: < http://www.itaucultural.org.br/aplicExternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&cd_verbete=2505&cd_idioma=28555&cd_item=1>. Acesso em: 05 jun. 2014.

ARQUIVO GERAL DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO. Lucílio de Albuquerque – Estudos e esboços. Rio de Janeiro, [1979]. Catálogo de exposição. Mimeografado.

DEPARTAMENTO DE CULTURA (Prefeitura do Município de São Paulo). Lucílio de Albuquerque – Exposição Retrospectiva – Salão de Arte “Almeida Júnior”. São Paulo, 1942. Catálogo de exposição.

GRINBERG, Piedade Epstein. Lucílio de Albuquerque na arte brasileira. 19&20, Rio de Janeiro, v. III, n. 3, jul. 2008. Disponível em: <http://www.dezenovevinte.net/artistas/la_peg.htm>. Acesso em: 05 jun. 2014.

KELLY, Celso. Lucílio de Albuquerque. In: MUSEU NACIONAL DE BELAS ARTES (Brasil). Retrospectiva de Lucílio de Albuquerque. Rio de Janeiro, 1940. Catálogo de exposição.

MUSEU DE HISTÓRIA E ARTE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO – MUSEU DO INGÁ. Primeiros Gestos: alguns estudos de arte brasileira. Rio de Janeiro: Secretaria de Estado de Cultura; FUNARJ, mar-jul. 2009. Catálogo de exposição.

SIMÃO, Maria Teresa De Biase. Pesquisa Lucílio de Albuquerque. Rio de Janeiro: Superintendência de Museus – FUNARJ, [198-?]. Mimeografado.